segunda-feira, agosto 22, 2005

Guiné-Bissau: aspectos da vida de um povo (4/15)

por Eva Kipp, 1994

OREBOK OCOTÓ DE BUBAQUE

Na execução desta estatueta de Orebok Ocotô participam um velho escultor de nome Antônio, um seu filho e Tcharte, estando estes últimos ainda na fase de aprendizagem de execução de estatuetas do Irã Grande.

Desta feita, uma vez cortado um pedaço de tronco, com o ritual exigido, Antônio esboça o corpo da mesma com auxílio de um pedaço de carvão, antes de darem início ao trabalho.


António Equigo, escultor de Irã Grande Orebok Ocotó da tabanca de Bijante, em Bubaque.


Tcharte esculpindo a cabeça do Irã Grande.


António cortando madeira.

É Tcharte quem se ocupa, com ajuda do filho de António, da execução desta parte do trabalho.

Concluído o tronco, no qual se faz uma cavidade na barriga, é Tcharte quem se ocupa pessoalmente de esculpir a cabeça do Irã.

Desta feita, a cabeça é esculpida em separado e numa madeira diferente - o pau-carvão - trazida de uma outra ilha. Todo o talento de Tcharte fica bem patente no pormenor da cabeça esculpida.

Posteriormente, passa~se à fase do vestir a estatueta do Irã. Para esse efeito utilizam tecidos de cor branca, preta e vermelha. A cor vermelha, por exemplo, é a cor do rei, do fogo sagrado e do sangue oferecido nas cerimónias.


Preparação da mezinha sagrada para a estatueta Orebok Ocotó.


A esculpir a barriga do Irã Grande.


António e Tcharte fazem o corpo do Irã Grande.

Uma vez vestida a estatueta, a cabeça é pregada ao corpo e Tcharte dá-lhe os últimos retoques. Assim, com pedaços de metal faz os olhos e a boca e com óleo de palma pinta-a num tom alaranjado que, com o decorrer do tempo, se tomará castanho.
Finalmente, e ainda com tecido branco, preto e vermelho, fazem um chapéu que é colocado na estatueta.

Concluída a estatueta de Orebok Ocotó é ainda necessário dar-lhe os poderes de Irã. Para isso é preciso besuntar a mesma com uma mezinha sagrada. Esta é elaborada pela mistura de uma infusão de folhas de mangal e de ebendjiu com cinza, aguardente de cana e ovos.

Besuntado o interior da cavidade esculpida na barriga da estatueta com essa mistura, ela converte~se no Irã Grande Orebok Ocotó, com todos os seus poderes.

Para que seja utilizada, são ainda colocados na estatueta uma cabaça, que irá recolher os espíritos chamados através do Irã, uma bolsa onde se colocarão as ofertas ao Irã e um rabo de vaca, símbolo do seu poder.

Durante todo o processo de elaboração da estatueta, nenhuma pessoa, para além dos escultores, a pode ver. Uma vez finalizada, são chamados os homens e mulheres velhos da tabanca para a cerimónia inicial do novo Irã.

É também o momento em que os autores do pedido realizam o pagamento da obra executada, sendo normalmente feito em dinheiro, aguardente de cana, tabaco, vinho de palma e panos, sendo tudo colocado por trás da estatueta do Irã.


A estatueta de Orebok Ocotó na cerimónia inicial.

O chefe da tabanca, a mulher e o homem mais velho pedem a Orebok Ocotó que proteja o seu dono. Este, por sua vez, mata uma galinha, fazendo oferenda do seu sangue ao Irã, larga~a e esta, no estertor da morte, corre em círculo e cai aos seus pés.

Este é o sinal de que o Irã está de acordo que o homem que a mandou fazer tome posse da estatueta.

Finalmente, toda a tabanca realiza uma grande cerimónia, com a matança de uma vaca, para iniciar o novo Orebok Ocotó.

Após a cerimónia, o novo Irã é levado para o seu santuário.



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