sexta-feira, setembro 24, 2004

Militares descontentes com lacunas do acordo (1998)

Origem do documento: "A Capital", 4 de Novembro de 1998, transcrito de terravista.pt
por Paula Fidalgo

Militares de todas as facções estão descontentes com as lacunas do acordo

Após quase cinco meses de conflito na Guiné-Bissau, a população da capital encara com muita prudência pelos resultados do acordo de paz assinado pelo presidente «Nino» Vieira e o líder rebelde Ansumane Mané. Com efeito, o acordo não dá garantias de espécie alguma: não refere datas para a retirada das tropas estrangeiras e não indica quem vai constituir ou liderar o Governo de Unidade Nacional, entre outras lacunas. «A Capital» soube de fontes diplomáticas que a guerra pode reinstalar-se a qualquer momento.

Foi com um misto de alívio e de grande prudência que a população de Bissau começou ontem a retomar aos poucos a sua vida quotidiana, dois dias depois da assinatura do acordo de paz entre o presidente «Nino» Vieira e o líder da Junta Militar Ansumane Mané.

Com efeito, a par da escassez de víveres com que se debatem os civis, todos aguardam com expectativa pela implementação de medidas concretas acordadas pelas duas partes beligerantes - nomeadamente a formação do Governo de Unidade Nacional e a chegada da força de interposição oeste africana, a ECOMOG, em substituição das tropas estrangeiras que apoiam o chefe de Estado.

Por outro lado, há ainda dezenas de milhares de pessoas que permanecem exiladas em países terceiros ou deslocadas, algures no interior do país, e que hesitam em regressar imediatamente à capital por temerem pela sua segurança, bem como pela falta de alimentos.

As razões para tanto receio são lógicas e compreensíveis. Segundo soube «A Capital» junto de fontes diplomáticas portuguesas, o acordo de paz tal como foi redigido desagrada a ambas as partes, mas sobretudo ao presidente «Nino» Vieira e aos chefes militares, dadas as lacunas que contém.

O acordo, que reafirmou a continuação do cessar-fogo, prevê a retirada do país das tropas do Senegal e da Guiné Conacri que apoiavam o chefe de Estado desde o início do conflito, mas não estabelece datas para essa retirada. Diz apenas que as tropas estrangeiras terão de sair em simultâneo com a entrada no país da ECOMOG.

Militares insatisfeitos

Ora, segundo «A Capital» apurou, os militares senegaleses e da Guiné Conacri desejam sair da Guiné-Bissau o mais rapidamente possível, mas não têm ordem para isso. Em Bissau corre já a notícia de que vários militares da Guiné Conacri não perdem uma oportunidade de fugirem para o mato.

Segundo garantem fontes diplomáticas, as tropas de todas as fracções beligerantes (governamentais, estrangeiras e da Junta Militar) estão a ficar «paranóicas» com esta situação e já deram sinal de estarem sedentas de atacar-se mutuamente. Se isto continuar, asseguraram as mesmas fontes, a paz pode não durar mais de uma semana.

Outra das lacunas do acordo de paz diz respeito ao Governo de Unidade Nacional. O documento prevê a sua formação, mas ninguém faz ideia de quem será a personalidade consensual que o poderá liderar.

«Nino» Vieira anunciou que vai convocar «a classe política nacional» e o Conselho de Estado para a nomeação de um novo primeiro-ministro e a formação de um «governo de Unidade Nacional».

Porém, desconhece-se se o líder da Junta Militar será ouvido neste processo, tendo em conta que este Governo terá de conter elementos da confiança de Ansumane Mané - dois nomes possíveis são os de Francisco Benante, reitor da Universidade de Bissau, e de Francisco Sadul, um jurista conceituado no país.

Mais incertezas

Continuando no rol de lacunas do acordo de paz para a Guiné-Bissau, ficou estabelecido que o aeroporto Osvaldo Vieira e o porto da capital seriam abertos «imediatamente», mas não se sabe quem os vai controlar.

Desconhece-se igualmente quando serão abertos os corredores para a ajuda humanitária às populações e aos deslocados de guerra no interior do país, pois o acordo indica que essa missão ficará a cargo da ECOMOG, que ainda não tem data para chegar.

Ambas as partes concordaram na criação de um governo de Unidade Nacional, e na realização de eleições gerais e presidenciais até fim de Março de 1999.

Estas eleições serão supervisionadas por observadores da CEDEAO, e da CPLP, mas até lá o brigadeiro Ansumane Mané deseja a vinda de mais mediadores portugueses, soube «A Capital».

Entretanto, o presidente «Nino» Vieira, que aparentava um «ar fatigado e irritado» quando chegou a Bissau, na segunda-feira à noite, vindo de Abuja (capital nigeriana), permanece rodeado de seguranças no Palácio Presidencial. «A Capital» apurou que «Nino» sente-se inseguro e desprezado pela população. Os seus seguranças receiam de tal forma pela vida que dão a comida a provar aos cães com receio de envenenamento.



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